Não sabemos quais profissões existirão ou quais tecnologias dominarão o mundo. Mas sabemos que, se a mala estiver organizada com fundamentos sólidos — conhecimento estruturado, leitura profunda, raciocínio lógico, pensamento científico, disciplina intelectual — estaremos preparados.
Por Henrique Romano
Em tempos de grande ansiedade diante do impacto massivo da Inteligência Artificial, uma pergunta é inevitável: como formar capital humano para o futuro? A tentação contemporânea é buscar respostas inéditas, reescrever currículos revolucionários ou nos apoiar em listas anuais de habilidades “prontas para o futuro”.
Talvez a resposta mais adequada seja outra: precisamos, antes de tudo, fazer com excelência aquilo que define a base da formação humana há gerações. Antes de discutir novas competências, é preciso recuperar a pergunta fundante: que tipo de ser humano a escola pretende formar? Sem essa clareza filosófica, qualquer atualização curricular se torna superficial. No Brasil, não partimos do zero. A Lei de Diretrizes e Bases, a BNCC e as resoluções dos Conselhos de Educação já delineiam uma arquitetura consistente.
As dez competências gerais da BNCC articulam conhecimento estruturado, pensamento científico, cultura digital, comunicação, argumentação, responsabilidade e projeto de vida. Não se trata de um modelo ultrapassado, mas de um desenho intencional que, quando bem implementado, responde com maturidade aos desafios do nosso tempo.
A educação básica pode ser comparada a uma mala preparada para uma longa viagem ao futuro.
Não sabemos quais profissões existirão ou quais tecnologias dominarão o mundo. Mas sabemos que, se a mala estiver organizada com fundamentos sólidos — conhecimento estruturado, leitura profunda, raciocínio lógico, pensamento científico, disciplina intelectual — estaremos preparados para atravessar mudanças com autonomia e discernimento.
Quando tentamos adaptar a escola a cada relatório de tendências, corremos o risco de trocar roupas essenciais por acessórios da moda.
Em 2018, o Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, apontava “technology design and programming” como habilidades críticas para o futuro. Em 2025, o mesmo relatório desloca o foco para “Al and big data” como competências de crescimento mais acelerado. Evidentemente, aprender programação não foi inútil. Mas o movimento revela a velocidade com que as manchetes mudam e como previsões, mesmo sofisticadas, são transitórias diante da dinâmica tecnológica.
Joseph Schumpeter chamou de destruição criativa o processo pelo qual inovações substituem modelos antigos. Desde a Revolução Industrial, previsões sobre o fim do trabalho reaparecem em ciclos. Hoje, com a Inteligência Artificial, surgem versões contemporâneas desse temor. A história, porém, mostra que o desafio central não é preservar ocupações específicas, mas formar pessoas capazes de aprender continuamente.
A frase atribuída a Elbert Hubbard é provocativa: “Uma máquina pode fazer o trabalho de cinquenta homens comuns, mas nenhuma máquina pode fazer o trabalho de um homem extraordinário”. O extraordinário nasce do repertório, do hábito, da disciplina intelectual. E hábitos são construídos na coerência entre família e escola, na repetição cotidiana que molda caráter e autonomia por meio de experiências intencionais de aprendizagem.
Jacques Delors afirmou que cabe à educação fornecer os mapas de um mundo constantemente agitado. Esses mapas não são listas voláteis de competências emergentes, mas fundamentos: leitura, matemática, pensamento lógico, científico e criativo, consciência histórica e filosófica, visão de mundo, ética e responsabilidade.
Não por acaso, quando perguntado sobre o que gostaria de obter ao conversar com um computador capaz de acessar todo o conhecimento da humanidade, Steve Jobs respondeu que preferiria receber a mentoria que Aristóteles deu a Alexandre, o Grande — há quase 2.300 anos. A resposta, dada muito antes da era da IA, revela algo essencial: o conhecimento acumulado é vasto, mas a formação humana profunda permanece insubstituível.
Formar capital humano para o Espírito Santo e para o Brasil exige menos ansiedade e mais consistência. Exige compreender que, diante da destruição criativa, a melhor estratégia não é improvisar, mas fortalecer fundamentos. A educação tem, como lembrava Aristóteles, raízes amargas, mas os frutos são doces. É essa disciplina paciente que constrói sociedades prósperas.
Iniciativas como o Plano ES 500 Anos, que estabelece um marco inédito de planejamento de longo prazo no Espírito Santo, corroboram para essa construção. Em um encontro que reuniu lideranças dos setores público e produtivo, da academia e da sociedade civil, na última segunda-feira (09), um painel transversal trouxe para o centro da discussão a formação de capital humano e o desenvolvimento de competências em diálogo com as cinco missões estratégicas do plano.
Artigo também publicado no portal A Gazeta.

